Meu primeiro dia de finados

6-Nov-2018

 

Passavam poucos minutos das sete horas da manhã e o circo já estava armado em frente ao cemitério. Vendedores de flores e velas disputavam a freguesia, como feirantes anunciando os seus produtos. Aos berros...

Um flanelinha me auxilia a entrar em uma vaga que caberia cinco carros, com a fleuma de sempre, como se fosse imprescindível o seu auxílio. Ouvi, certa feita, uma pessoa dizer que dedica mais ódio aos flanelinhas do que aos ditadores, pois os primeiros se acham donos da rua e nem ao menos se deram ao trabalho de planejarem um golpe militar ou coisa que o valha.

A tenda de uma funerária era vista de longe, tal qual os balões das concessionárias de carros. Não entendi e nem procurei saber o que ofereciam. Talvez ofereçam um conforto espiritual a quem visita os seus mortos ou quem sabe ofereçam planos funerários aos mais precavidos. Achei de péssimo gosto...

Ao adentrar o portão, fui abordado por um limpador de túmulos e um outro sujeito com uma barba de duas semanas que se dizia maquiador de túmulos. Dispensei a ambos e segui em frente.

No trajeto até o túmulo, observei que haviam pessoas já calejadas na arte de visitar os mortos no dia dedicado a eles, umas com pouca experiência e os marinheiros de primeira viagem, como era o meu caso.

Nas primeiras notava-se mais expediente: lavavam os túmulos, usando para isto as torneiras instaladas no corredor central, substituíam as flores velhas e raspavam os restos de velas queimadas, acendendo outras no lugar.

Confesso que não sabia como me portar. Talvez estivesse ali apenas cumprindo uma praxe da convivência em sociedade, mas, para não perder a viagem, comecei a reparar nos demais no intuito de fazer algo ao menos parecido.

Observei algumas pessoas rezando, outras fazendo confidências a seus mortos em tom de confessionário, algumas riam e optei simplesmente por contar os últimos acontecimentos.

Comecei dando a notícia que com certeza deixaria meu pai satisfeito: o Botafogo ganhou de goleada o último jogo. Falei dos últimos acontecimentos da política, evitando dar o meu parecer, pois sabia que o meu pai era simpatizante do atual governo. Dei-lhe a boa notícia de que minha filha estava curada e que não contasse comigo para conseguir um aumento no número de netos. Foi alarme falso.

Comentei sobre o lançamento do meu quarto livro e de como não consegui falar tudo o que queria a seu respeito, no momento em que lhe dediquei o livro. Fiquei com medo de cair em prantos.

Quando citei o episódio de um conhecido, que dizia incorporar o espírito da sogra e a mesma lhe dava plenos poderes sobre a herança que deixou para os filhos, pareceu-me ter ouvido a sua risada.

Terminei pedindo a sua bênção, coisa que nunca fiz quando ele era vivo e chorei ao lembrar que também nunca lhe disse, em vida, o quanto gostava dele. Quem sabe um dia eu possa ter nova chance...

Até qualquer dia desse meu pai.

 

 

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