Conceitos de Infância

25-Oct-2018

 

Sabe aquelas coisas que você aprende, vê, deduz ou simplesmente lhe são ditas na infância e você as leva para vida adulta, como sendo a mais pura verdade? Pois é, hoje, um desses conceitos que trouxe de minha infância caiu por terra.

Não me lembrava mais desse conceito, mas, a mulher que subiu as escadas do restaurante, sorridente e conversando com uma amiga me trouxe ele de volta à mente. Não foi o assunto que entabulava e nem o seu sorriso de canto a canto da boca. Foi o seu cruzar de pernas.

Um par alvo e bem torneado, acompanhado de um incessante balançar do pé pendente, que parecia seguir o ritmo da prosa. Parava quando o assunto cessava, para a boca mastigar e voltava a  pendular quando a comida tomava o seu rumo.

Porém, não trazia comigo conceitos de infância sobre pernas bonitas ou pés inquietos, ou em os trazendo, continuaram imutáveis. O que me chamou a atenção foi que a mulher, em questão, usava anágua.

Uma anágua creme, com detalhes em filó, que lembravam os vitrais de uma igreja. Dona Benvinda usava uma anágua assim.

Aquela triste senhora de minha infância, me fez acreditar que anágua era coisa de mulher infeliz. O seu semblante não amolecia nem com a gargalhada de um bebê. Era infensa a piadas e graçolas. Um mal humor constante lhe acompanhava, assim como a anágua.

Respondia aos cumprimentos matinais, vespertinos e noturnos com grunhidos. Nem quando ganhou uma enceradeira em uma rifa da paróquia do Rosário demonstrou alegria. Chorou de soluçar.

Eu estava presente no gramado em frente a Igreja, esperando o povo sair para iniciarmos a pelada e vi que a anágua lhe acompanhou no recebimento do prêmio.

Tinha para mim que a anágua de dona Benvinda servia não para inibir a transparência do vestido e sim para proteger os demais da sua tristeza. A anágua a retinha no seu corpo.

Dona Benvinda morreu nova ainda. No caixão o semblante carregado e a anágua sob o vestido.

Não tinha como não ter esse preceito. Acho que todos que conheceram aquela senhora pensavam assim.

Olho para a mulher sorridente, falante e de anágua; olho para a lixeira e mentalmente arremesso o meu conceito de infância.

Já não era uma verdade absoluta.

 

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